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Gisele Kessia

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O menino que não ia à escola

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Libertem as crianças
Texto de Sandro Lobo

Passei a última semana com um menino normal. Normal, desses que sobem em árvores, brincam o dia todo, andam descalços, se sujam e não gostam de tomar banho toda hora. Ele tem 8 anos e não frequenta escola. Os pais integram um projeto de ensino doméstico, junto com outras famílias.
Depois de adulto, eu nunca tinha estado uma semana inteira na companhia de uma criança. Foi um presente pra mim. Uma recarga de vitalidade, afeto, esperança, inventividade, espontaneidade, alegria e um monte de outras maravilhas. O menino se tornou um mestre. Era um aprendizado mais lindo do que outro, e construímos a nossa amizade.
Minha abordagem infantilizada logo no início deu sinais de que o papo ia ser diferente. Meu amigo fez logo cara de “por que ele tá falando desse jeito tosco comigo?”. Não era um bebê grande, era um adulto pequeno.
Como ele é criado de uma maneira bem diferente do que estou acostumado a ver, alguns artifícios da minha geração não eram possíveis, e acompanhar ele teve que ser uma experiência honesta. Não podia colocar na frente da TV, para ganhar tempo; ou fingir que um ser malvado iria atacá-lo caso não fizesse algo que eu queria. Como os pais não mentem pra ele, fingir ou inventar coisas para fugir das minhas responsabilidades não era uma opção. E nem precisava.
Estar com ele era gostoso e divertido. Nenhum dos dois precisava fazer o que não queria. Eu não mandava nele, ele não mandava em mim. Eu não mentia pra ele, ele não mentia pra mim. Tão natural quanto a natureza da relação pura da amizade.
Meu amigo subiu em coqueiros e árvores da altura de prédios de 3 andares (ou mais). Pegou em tartaruga marinha, siri, carangueijo, lesma e estrela do mar, peixes e enguias. Correu, pulou muros e escalou corrimões. Abriu cocos verdes com facão, descascou frutas e preparou seus sanduíches e lanches. Criou e recriou origamis e peças em massas de modelar, desenhou mapas e criou complexos jogos de caça ao tesouro. Conversou em português, inglês e alemão, cantou, leu e escreveu (ainda bem devagarzinho). Enfrentou o perigo do mar, deslizou em suas ondas e se enterrou na areia. Também construiu castelos, com pontes e túneis, sistema de captação e escoamento de água, e dispositivo de entrada e saída de pequenos animais.
Como dizíamos antes, pintou e bordou.
Sem dúvida, uma das criaturas mais fantásticas que já conheci. Um mestre mesmo. Não foi pra escola. Usou o tempo para aprender e desenvolver suas capacidades.
No quinto dia, levei meu amigo para brincar com as crianças na pracinha do condomínio. Um desalento. Sabe quando a gente fica sem chão? Sem perspectiva, sem esperança? Pois é. A diferença entre meu amigo e as outras crianças era gritante.
Crianças gordas, lentas, cheias de medos e paranoias, desrespeitosas e viciadas em açúcar, mimos e eletrônicos. Incapazes de desempenhar capacidades naturais da sua existência como correr ou subir em árvores. Pela primeira vez, tive pena de meu amigo. No meio de 7 meninos, estava praticamente sozinho.
Os meninos ficaram curiosos com ele e queriam fazer-lhe perguntas. Claro, carentes que são de diversidade. Pobre do meu amigo. Foi bombardeado por uma metralhadora de inquisições sem sentido e bobas. Na sua cabeça, não tinha sentido nenhum alguém de 6 ou 8 anos perguntar por exemplo: “você toma banho?”, “por que seu cabelo é de menina?”, “você come?”, ou “posso ir pra sua casa em Portugal amanhã brincar com você”?
Seu cabelo longo era impossível, já que é um garoto. Subir tão alto nas árvores era absurdo para os outros pais que estavam por ali, assim como estar sujo e com roupas amassadas era impróprio.
Mas o meu amigo não destratou ninguém. Brincou com eles por um tempo, até se cansar. Era difícil, pois ele era o diferentão e ninguém conseguia acompanhar o seu ritmo, nem físico nem cognitivo. Mas tudo bem. Brincou, brincou e me chamou pra casa.
“O que achou dos meninos, amigo?”
“Legais. Só um pouquinho ‘bitolados da cidade grande’. Mas legais.”
Um dos meninos gostou do meu amigo, e queria brincar com ele no outro dia. Mas não podia.
Não podia, pois tinha aula. O menino tinha 6 anos e não podia brincar com o novo amigo que iria embora logo logo. Com 6 anos de idade, o menino não podia ir à praia com o novo amigo, pois tinha aula. Tinha aula. Não podia brincar com o amigo porque tinha aula. Não podia brincar. Não podia. 6 anos e não podia brincar. 6 anos. Tinha aula.
O menino quis ficar grudado no meu amigo e a vó disse:
“Filho, venha dormir. Amanhã você tem aula. Seu amigo vai pra praia amanhã porque tá de férias. Né, menino?”
E no caminho de casa, meu amigo disse:
“Sim tô de férias. Eu tenho férias todos os dias”.
Meu amigo vive de férias. Faz o que gosta. Conhece seus limites, respeita as pessoas (adultas e crianças), aprende, se desenvolve e brinca. Vive de férias. Não é melhor do que ninguém. Só é aquilo que todas as crianças seriam se deixássemos que elas fossem. Como as crianças normais. Lembra delas?
Sandro Lobo – Kombi Cura
Abril de 2017
Pela liberdade das pessoas, grandes ou pequenas.

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